Capítulo Três
Qual é a origem da
vida?
A
TERRA fervilha de vida. Do gelado Ártico à floresta amazônica, do deserto do
Saara ao pantanal Everglades, do escuro leito oceânico aos reluzentes picos de
montanha — a vida é abundante. E tem muito potencial de nos causar
assombro.
A
vida se apresenta em tipos, tamanhos e quantidades estonteantes. Um milhão de
espécies de insetos povoa o nosso planeta. Nas águas que nos cercam nadam mais
de 20.000 espécies de peixes — alguns do tamanho de um grão de arroz,
outros do comprimento de um caminhão. Pelo menos 350.000 espécies de plantas
— algumas exóticas, a maioria maravilhosas — enfeitam o solo. E mais
de 9.000 espécies de pássaros voam acima de nós. Essas criaturas, incluindo o
homem, formam o panorama e a sinfonia que chamamos de vida.
Ainda
mais espantoso do que a agradável variedade de formas de vida, porém, é a
profunda união que as interliga. Os bioquímicos, que estudam a fundo as
criaturas da Terra, explicam que todas as coisas vivas — sejam amebas ou
seres humanos — dependem de uma espantosa interação: o trabalho de equipe
dos ácidos nucléicos (DNA e RNA) e das moléculas de proteína. Os intrincados
processos que envolvem esses componentes ocorrem praticamente em todas as
células do nosso corpo, assim como nas células de beija-flores, de leões e de
baleias. Essa interação uniforme produz um belo mosaico de vida. Como surgiu
essa orquestração de vida? Sim, qual é a origem da vida?
Provavelmente
você aceita o fato de que houve um tempo em que não havia vida na Terra. A
ciência concorda com isso, bem como muitos livros religiosos. Mesmo assim,
talvez saiba que essas duas fontes — a ciência e a religião
— divergem na explicação de como a vida começou na Terra.
Milhões
de pessoas de todos os níveis culturais acreditam que um Criador inteligente, o
Projetista original, produziu a vida na Terra. Em contraste, muitos cientistas
dizem que a vida surgiu de matéria sem vida, através de sucessivas reações
químicas, por mero acaso. Quem está certo?
Não
devemos encarar esse assunto como distante de nós e de nossa busca de uma vida
mais significativa. Como já mencionado, uma das perguntas mais fundamentais dos
humanos tem sido: Como é que nós, seres humanos vivos, viemos a existir?
A
maioria dos livros científicos concentra-se na adaptação e na sobrevivência das
formas de vida, em vez de na questão mais central — a própria origem da
vida. Talvez tenha notado que as tentativas de explicar a origem da vida em
geral são feitas em forma de generalizações, tais como: ‘Por milhões de anos,
moléculas em colisão de alguma maneira produziram a vida.’ Mas é isso realmente
satisfatório? Isso significaria que, exposta à energia do Sol, a relâmpagos ou
a vulcões, alguma matéria sem vida reagiu, organizou-se e, por fim, passou a
viver — tudo isso sem ajuda orientada. Que enorme salto isso teria sido!
De matéria sem vida para matéria viva! Poderia ter acontecido assim?
Na
Idade Média, aceitar esse conceito talvez não fosse difícil, pois a geração
espontânea (a noção de que a vida poderia ter surgido espontaneamente de
matéria sem vida) era uma crença corrente. Finalmente, no século 17, o
médico italiano Francesco Redi provou que os gusanos apareciam na carne
estragada só depois de as moscas terem depositado ovos nela. Nenhum gusano
surgia em carne fora do alcance das moscas. Se insetos do tamanho das moscas
não surgiam simplesmente sozinhos, que dizer dos micróbios que continuavam a
aparecer nos alimentos — cobertos ou não? Ainda que experimentos
posteriores indicassem que os micróbios não surgiam espontaneamente, a questão
continuou controversial. Daí veio o trabalho de Louis Pasteur.
Muitos
conhecem o trabalho de Pasteur, que resolveu problemas ligados à fermentação e
a doenças infecciosas. Ele também fez experiências para ver se formas de vida
minúsculas poderiam surgir por si mesmas. Como talvez tenha lido, Pasteur
demonstrou que até mesmo bactérias minúsculas não se formavam em água
esterilizada protegida da contaminação. Em 1864, ele anunciou: “A doutrina
da geração espontânea jamais se recuperará do golpe mortal desferido por essa
experiência simples.” Isso ainda é verdade. Experimento algum produziu vida de
matéria sem vida.
Como,
então, poderia vir a existir vida na Terra? Tentativas modernas de responder a
essa pergunta podem remontar aos anos 20, aos trabalhos do bioquímico russo
Alexander I. Oparin. Ele e outros cientistas desde então têm produzido
algo parecido com o texto de um drama de três atos, que representa o que supostamente
ocorreu no palco do planeta Terra. O primeiro ato mostra os elementos, ou
matérias-primas, da Terra virarem grupos de moléculas. Em seguida, o salto para
moléculas maiores. E o último ato apresenta o salto para a primeira célula
viva. Mas foi realmente assim que tudo aconteceu?
Nesse
drama, é fundamental explicar que a atmosfera primitiva da Terra era muito
diferente do que é hoje. Segundo certa teoria, praticamente não havia oxigênio
livre, e os elementos nitrogênio, hidrogênio e carbono formaram o amoníaco e o
metano. A idéia é que, quando os relâmpagos e a luz ultravioleta caíram sobre
uma atmosfera formada por esses gases e vapor de água, surgiram açúcares e
aminoácidos. Mas tenha em mente que é uma teoria.
Nesse
drama teórico, essas formas moleculares escorreram para os oceanos ou para
outros corpos de água. Com o tempo, os açúcares, os ácidos e os outros
componentes formaram um caldo de “sopa pré-biótica”, na qual os aminoácidos,
por exemplo, combinaram-se e viraram proteínas. Estendendo essa progressão
teórica, outros componentes, os nucleotídeos, formaram cadeias e viraram ácido
nucléico, como o DNA. Tudo isso, supostamente, preparou o cenário para o ato
final do drama molecular.
Pode-se
chamar esse último ato, de que não se tem registro,
de história de amor. As moléculas de proteína e as moléculas do DNA
encontraram-se por acaso, houve compatibilidade e elas se uniram. Daí, pouco
antes de fechar as cortinas, nasce a primeira célula viva. Se você viesse
acompanhando esse drama, talvez se perguntasse: ‘Isso é vida real ou ficção?
Poderia a vida na Terra realmente ter-se originado dessa maneira?’
Gênese em laboratório?
No
início dos anos 50, os cientistas resolveram testar a teoria de Alexander
Oparin. Era um fato estabelecido que vida vem apenas de vida, mas os
cientistas teorizavam que, se as condições fossem diferentes no passado, a vida
poderia ter surgido lentamente de algo sem vida. Poderia ser demonstrado
isso? O cientista Stanley L. Miller, do laboratório de Harold Urey, tomou
hidrogênio, amoníaco, metano e vapor de água (presumindo ser esta a
constituição da atmosfera primitiva), lacrou-os num frasco com água fervente no
fundo (para representar um oceano), e disparou faíscas elétricas (como
relâmpagos) através dos vapores. Depois de uma semana apareceram vestígios de
uma goma avermelhada, que Miller analisou e descobriu ser rica em aminoácidos
— a essência das proteínas. É provável que você tenha ouvido falar dessa
experiência, pois há anos ela é mencionada em livros de ciência e nas escolas
para explicar como a vida na Terra começou. Explica mesmo?
Na
verdade, o valor da experiência de Miller é seriamente questionado hoje em dia.
(Veja “Clássica, mas questionável”, páginas 36-7.) Não obstante, seu
sucesso aparente levou a outros testes que até mesmo produziram componentes
encontrados em ácidos nucléicos (DNA ou RNA). Especialistas no campo (às vezes
chamados de cientistas da origem-da-vida) estavam otimistas, pois aparentemente
haviam reproduzido o primeiro ato do drama molecular. E parecia que as versões
em laboratório dos dois atos restantes se seguiriam. Certo professor de Química
afirmou: “A explicação da origem de um primitivo sistema de vida por meio
de mecanismos evolucionários está bem à vista.” E um articulista científico
observou: “Os magos especulavam que os cientistas, como o Dr. Frankenstein
de Mary Shelley, num passe de mágica logo fariam surgir organismos vivos em
seus laboratórios e, assim, demonstrar em detalhes como se deu a gênese.” O
mistério da origem espontânea da vida, muitos achavam, estava desvendado.
— Veja “Direita, esquerda”, página 38.
Mudam as opiniões, persistem os enigmas
Em
anos posteriores, porém, esse otimismo se evaporou. Passaram-se décadas, e os
segredos da vida continuam esquivos. Uns 40 anos depois de seu experimento, o
professor Miller disse à revista Scientific American:
“O problema da origem da vida revelou ser muito mais difícil do que eu, e
a maioria das outras pessoas, imaginava.” Outros cientistas também mudaram de
opinião. Por exemplo, em 1969, o professor de Biologia Dean H. Kenyon foi
co-autor do livro Biochemical Predestination (Predestinação
Bioquímica). Mais recentemente, porém, ele concluiu que seria “fundamentalmente
implausível que matéria e energia não-assistidas se organizassem em sistemas
vivos”.
De
fato, os trabalhos de laboratório comprovam a afirmação de Kenyon de que existe
“uma falha fundamental em todas as teorias correntes a respeito das origens
químicas da vida”. Depois que Miller e outros sintetizaram aminoácidos, os
cientistas passaram a tentar fabricar proteínas e DNA, necessários para a vida
na Terra. Após milhares de experiências com as chamadas condições pré-bióticas,
qual foi o resultado? O livro “O Mistério da Origem da Vida: Reavaliando
Teorias Correntes” (em inglês), observa: “Há um contraste impressionante entre
o considerável sucesso em sintetizar aminoácidos e o persistente fracasso de
sintetizar proteínas e DNA.” Os empenhos nesse último sentido são “fracassos
constantes”.
Realisticamente,
o mistério envolve mais do que como surgiram as primeiras moléculas de proteína
e de ácido nucléico (DNA ou RNA). Inclui como é que elas trabalham juntas.
“É somente pela parceria dessas duas moléculas que a vida contemporânea na
Terra é possível”, diz The New Encyclopædia Britannica.
Contudo, como essa parceria se formou, observa essa enciclopédia, ainda é “um
problema crucial e não-resolvido na questão da origem da vida”. Sem dúvida.
O
Apêndice A, “Equipe a serviço da vida” (páginas 45-7), considera alguns
detalhes básicos do instigante trabalho de equipe das proteínas e dos ácidos
nucléicos nas nossas células. Mesmo esse relance no âmbito das células do nosso
corpo desperta admiração pelo trabalho de cientistas nesse campo. Eles têm
lançado luz sobre processos extremamente complexos nos quais poucos de nós
sequer pensam, processos que, no entanto, funcionam todo instante de nossa
vida. De outro ângulo, porém, a espantosa complexidade e precisão exigidas
leva-nos de novo à pergunta: Como é que tudo isso surgiu?
Talvez
saiba que os cientistas da origem-da-vida não cessam de tentar criar um cenário
plausível para o drama do surgimento da vida. No entanto, seus novos textos não
estão sendo convincentes. (Veja o Apêndice B, “Do ‘mundo do RNA’ ou de
outro mundo?”, página 48.) Por exemplo, Klaus Dose, do Instituto de
Bioquímica em Mainz, Alemanha, observou: “No presente, todas as discussões
sobre as teorias e experiências principais nesse campo acabam em impasse ou em
admissão de desconhecimento.”
Mesmo
na Conferência Internacional sobre a Origem da Vida, em 1996, nenhuma solução
foi apresentada. Em vez disso, a revista Science publicou que os cerca
de 300 cientistas reunidos “haviam-se digladiado com o enigma de como surgiram
as moléculas do [DNA e RNA] e como evoluíram em células auto-reprodutoras”.
Foi
preciso inteligência e educação superior para estudar e até mesmo começar a
explicar o que ocorre a nível molecular nas nossas células. É razoável crer que
etapas complicadas ocorreram primeiro numa “sopa pré-biótica”, sem direção,
espontaneamente e por acaso? Ou havia mais envolvido?
Por que os enigmas?
A
pessoa hoje pode repassar quase meio século de especulações e milhares de
tentativas de provar que a vida originou-se por si mesma. Se fizer isso, será
difícil discordar do prêmio Nobel Francis Crick. Discorrendo sobre teorias da
origem da vida, Crick observou que “há demasiada especulação em cima de fatos
escassos demais”. Portanto, é compreensível que alguns cientistas que examinam
os fatos concluam que a vida é complexa demais para despontar mesmo num
sofisticado laboratório, muito menos num ambiente sem controle.
Se a
ciência avançada não pode provar que a vida poderia surgir por si mesma, por
que alguns cientistas ainda se apegam a tais teorias? Algumas décadas atrás, o
professor John D. Bernal lançou alguma luz sobre isso no livro The Origin
of Life (A Origem da Vida): “Pela aplicação dos estritos
cânones [regras] do método científico a esse assunto [a geração espontânea
da vida], é possível demonstrar eficazmente em vários pontos na história que a
vida não poderia ter surgido [espontaneamente]; as improbabilidades são grandes
demais, as chances da emergência de vida são pequenas demais.” Ele acrescentou:
“Lamentável desse ponto de vista, a vida existe aqui na Terra em toda a sua
multiplicidade de formas e atividades, e os argumentos para justificar a sua
existência precisam ser distorcidos.” E o quadro não melhorou.
Considere
as implicações subjacentes de tal raciocínio. É como dizer: ‘Cientificamente é
correto dizer que a vida não poderia ter começado por si mesma. Mas o
surgimento espontâneo da vida é a única possibilidade que aceitamos. Assim, é
preciso distorcer os argumentos para apoiar a hipótese de que a vida surgiu
espontaneamente.’ Fica satisfeito com essa lógica? Não exige tal raciocínio muita
‘distorção’ dos fatos?
Existem,
no entanto, cientistas cultos e respeitados que não acham necessário distorcer
os fatos para ajustá-los a uma filosofia corrente a respeito da origem da vida.
Em vez disso, permitem que os fatos apontem para uma conclusão razoável. Que
fatos e que conclusão?
Informações e inteligência
Entrevistado
num documentário, o professor Maciej Giertych, renomado geneticista do
Instituto de Dendrologia da Academia Polonesa de Ciências, declarou:
“Estamos
cientes da quantidade maciça de informações contidas nos genes. A ciência não
sabe como tais informações poderiam ter surgido espontaneamente. É preciso uma
inteligência; não poderiam ter surgido de casualidades. Simplesmente misturar
letras não produz palavras.” Ele acrescentou: “Por exemplo, o complexíssimo
sistema de duplicação de proteínas do DNA e do RNA na célula tinha de ser
perfeito logo de início. Senão, os sistemas de vida não poderiam existir. A
única explicação lógica é que essa massa de informações originou-se de uma inteligência.”
Quanto
mais se aprende sobre as maravilhas da vida, mais lógico é aceitar esta
conclusão: a origem da vida requer uma fonte inteligente. Que fonte?
Como
já mencionado, milhões de indivíduos cultos concluem que a vida na Terra só
poderia ter sido produzida por uma inteligência superior, um projetista. Sim,
depois de um exame imparcial, eles concordam que, mesmo na nossa era
científica, é razoável dar razão ao poeta bíblico que, há muito, disse sobre
Deus: “Contigo está a fonte da vida.” — Salmo 36:9.
Quer
você já tenha, quer não, formado uma opinião firme a respeito, voltemos a nossa
atenção para algumas maravilhas que envolvem você pessoalmente. Fazer isso é
muito gratificante, e pode iluminar muito esse assunto que afeta a nossa vida.
Muitos cientistas reconhecem agora
que as complexas moléculas, fundamentais para a vida, não poderiam ter sido
geradas espontaneamente numa sopa pré-biótica
Mesmo um relance no mundo complexo e
nas funções intrincadas de cada célula do corpo leva à pergunta: Como surgiu
tudo isso?
• Membrana celular
Controla o que entra e o que sai da
célula
• Núcleo
Centro de controle da célula
• Cromossomos
Contêm o DNA, o plano-mestre
genético
• Ribossomos
Onde são feitas as proteínas
• Nucléolo
Local de montagem dos ribossomos
• Mitocôndrio
Centro de produção de moléculas que
fornecem energia para a célula
Que chances tem o acaso?
“O acaso, e somente o acaso, fez tudo — da sopa primordial ao
homem”, disse o prêmio Nobel Christian de Duve, falando a respeito da origem da
vida. É o acaso, porém, uma explicação racional para a causa da vida?
O que é acaso? Alguns pensam em termos de probabilidade matemática, como
no lançamento de uma moeda para o alto. Mas não é assim que muitos cientistas
usam “acaso” com relação à origem da vida. A vaga palavra “acaso” é usada como
substituta de uma palavra mais precisa, como “causa”, especialmente quando a
causa é desconhecida.
“Personificar o ‘acaso’, como se estivéssemos falando de um agente
causativo”, observa o biofísico Donald M. MacKay, “é fazer uma transição
ilegítima de um conceito científico para um conceito mitológico
quase religioso”. Robert C. Sproul também destacou: “Por chamar há
tanto tempo de ‘acaso’ a causa desconhecida, as pessoas começam a esquecer-se
de que se fez uma substituição. . . . Para muitos, a suposição de que
‘acaso é igual a causa desconhecida’ veio a significar que ‘acaso é igual a
causa’.”
O prêmio Nobel Jacques L. Monod, por sua vez, usou esta linha de
raciocínio acaso-igual-a-causa: “O mero acaso, absolutamente desimpedido,
porém cego, [está] na própria base da estupenda estrutura da evolução”,
escreveu. “O homem finalmente sabe que está sozinho na insensível
imensidão do Universo, do qual ele surgiu apenas por acaso.” Note que ele diz:
“POR acaso.” Monod faz como muitos
outros — eleva o acaso a um princípio criativo. O acaso é apresentado como
meio pelo qual a vida veio a existir na Terra.
Segundo certos dicionários, “acaso” é ‘o suposto determinante
impessoal, sem objetivo, de inumeráveis acontecimentos’. Assim, quem diz que a
vida surgiu por acaso está dizendo que ela surgiu por meio de um poder casual
desconhecido. Não estariam alguns virtualmente escrevendo “Acaso” com inicial
maiúscula — dizendo, na verdade, Criador?
“[A menor bactéria que existe] é bem mais parecida com uma pessoa do que
as misturas de substâncias químicas de Stanley Miller, porque a bactéria já tem
essas propriedades de sistema. Portanto, passar de uma bactéria para uma pessoa
é um passo menor do que passar de uma mistura de aminoácidos para essa
bactéria.” — Professora de Biologia Lynn Margulis
Clássica, mas questionável
A experiência de Stanley Miller, de 1953, muitas vezes é citada como
evidência de que a geração espontânea poderia ter acontecido no passado. A
validade de sua explicação, contudo, baseia-se na suposição de que a atmosfera
primordial da Terra era “de redução”. Isso significa que continha apenas a menor
quantidade de oxigênio livre (não-combinado quimicamente). Por quê?
O livro “O Mistério da Origem da Vida: Reavaliando Teorias
Correntes” (em inglês) destaca que, se houvesse muito oxigênio livre, ‘nenhum
aminoácido poderia ter sido formado e, se por acaso fosse formado, se
decomporia rapidamente’. Quão sólida foi a suposição de Miller a respeito da
chamada atmosfera primitiva?
Num documento clássico publicado dois anos depois de sua experiência,
Miller escreveu: “É claro que essas idéias são especulações, pois não
sabemos se a Terra realmente tinha uma atmosfera de redução quando foi formada.
. . . Até agora não se achou nenhuma evidência direta.” — Journal
of the American Chemical Society, 12 de maio
de 1955.
Encontrou-se mais tarde essa evidência? Uns 25 anos depois, o
articulista científico Robert C. Cowen publicou: “Os cientistas estão tendo de
repensar algumas de suas suposições. . . . Surgiram poucas evidências
em apoio da noção de uma atmosfera rica em hidrogênio, altamente de redução; no
entanto, há certas evidências contra ela.” — Technology Review,
abril de 1981.
E desde então? Em 1991, John Horgan escreveu em Scientific American:
“Na última década, mais ou menos, aumentaram as dúvidas a respeito das
suposições de Urey e Miller sobre a atmosfera. Experiências em laboratório e
reconstruções computadorizadas da atmosfera . . . sugerem que a
radiação ultravioleta do Sol, hoje bloqueada pelo ozônio atmosférico, teria
destruído as moléculas à base de hidrogênio na atmosfera. . . . Tal
atmosfera [dióxido de carbono e nitrogênio] não teria sido conducente à síntese
de aminoácidos e de outros precursores da vida.”
Por que, então, muitos ainda sustentam que a atmosfera primitiva da
Terra era de redução, contendo pouco oxigênio? Em Molecular Evolution
and the Origin of Life (Evolução Molecular e
a Origem da Vida), Sidney W. Fox e Klaus Dose respondem: na atmosfera
certamente não havia oxigênio porque, por um lado, “experiências em laboratório
mostram que a evolução química . . . seria grandemente inibida pelo
oxigênio” e porque componentes tais como os aminoácidos “não são estáveis no
decurso de períodos geológicos na presença de oxigênio”.
Não é isso um raciocínio evasivo? A atmosfera primitiva era de redução,
diz-se, pois do contrário a geração espontânea da vida não poderia ter
ocorrido. Mas realmente não existe certeza de que era de redução.
Ainda há outro detalhe importante: se a mistura de gases representa a
atmosfera, a faísca elétrica imita o relâmpago e a água fervente seria o mar
— o que, ou a quem, representa o cientista que faz a experiência?
O oxigênio é altamente reativo. Por
exemplo, ele se combina com o ferro e forma ferrugem, ou com o hidrogênio e
forma água. Se houvesse muito oxigênio livre numa atmosfera quando os
aminoácidos estivessem sendo montados, ele rapidamente se combinaria com as
moléculas orgânicas e as desmancharia, à medida que fossem formadas.
Direita, esquerda
Sabemos que existem luvas direita e esquerda. Dá-se o mesmo com as
moléculas de aminoácidos. Dos cerca de 100 aminoácidos conhecidos, apenas 20
são usados em proteínas, e todos são esquerdos. Quando os cientistas produzem
aminoácidos em laboratório, reproduzindo o que presumem ter acontecido numa
sopa pré-biótica, eles apuram um número igual de moléculas direitas e
esquerdas. “Esse tipo de distribuição 50-50”, diz o The New York Times,
“não é característico de vida, que depende apenas de aminoácidos esquerdos”.
Por que os organismos vivos se compõem de aminoácidos apenas esquerdos é “um
grande mistério”. Até mesmo os aminoácidos encontrados em meteoritos “mostraram
excessos de formas esquerdas”. O Dr. Jeffrey L. Bada, estudioso dos
enigmas da origem da vida, disse que “alguma influência fora da Terra talvez
tenha tido certa participação em determinar se os aminoácidos biológicos seriam
direitos ou esquerdos”.
“Essas experiências . . . reivindicam a produção de síntese
abiótica que, na realidade, foi produzida e projetada por um ser humano muito inteligente
e bem biótico numa tentativa de confirmar idéias com as quais ele estava
grandemente comprometido.” — Origin and Development of
Living Systems.
“Um ato intelectual voluntário”
O astrônomo britânico Sir Fred Hoyle há décadas estuda o Universo e a
vida nele, até mesmo esposando a idéia de que a vida na Terra veio do espaço
sideral. Discursando no Instituto de Tecnologia da Califórnia, ele falou da
ordem dos aminoácidos nas proteínas.
“O grande problema na biologia”, disse Hoyle, “não é tanto a pura
verdade que a proteína consiste de uma cadeia de aminoácidos interligados de
certa maneira, mas que o arranjo explícito dos aminoácidos dá a essa cadeia
propriedades notáveis . . . Se os aminoácidos fossem interligados a
esmo, haveria um enorme número de arranjos inúteis aos objetivos de uma célula
viva. Levando-se em conta que uma enzima típica tem uma cadeia de talvez 200
elos, e que existem 20 possibilidades para cada elo, é fácil ver que o número
de possíveis arranjos inúteis é enorme, mais do que o número de átomos em todas
as galáxias visíveis através dos maiores telescópios. Isso no caso de uma
enzima, e existem mais de 2.000 delas, a maioria servindo a objetivos muito
diferentes. Assim, como é que a situação chegou ao ponto que conhecemos?”
Hoyle acrescentou: “Em vez de aceitar a fantasticamente pequena
probabilidade de a vida ter surgido por meio das forças cegas da natureza,
parecia melhor supor que a origem da vida foi um ato intelectual voluntário.”
O professor Michael J. Behe disse: “Para quem
não se vê obrigado a restringir a sua busca a causas não-inteligentes, a
conclusão taxativa é que muitos sistemas bioquímicos foram projetados. Não
foram projetados pelas leis da natureza, nem por acaso e necessidade; eles
foram planejados. . . . A vida na Terra, no seu nível mais
fundamental, nos seus componentes mais críticos, é produto de atividade
inteligente.”